O Sangue dos Outros no Carnaval


Sábado da festa profana, conforme evangélicos. No já chamado carnaval à sombra de Bolsonaro, as bruxas pareciam soltas: muita chuva, amigos que não apareceram, acidentes, incidentes e as já cotidianas e inacreditáveis manifestações bolsonarianas enquanto Lula enterrava o neto de 7 anos.


Como dar tão pouco valor à vida dos (outros) homens? O cenário bizarro hoje não é aquele das instituições, da política, da cultura, da História, mas o que habita nosso próprio ser.


Termino de ler O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir: vemos muito sangue, mas é apenas o sangue dos outros; não é o meu. Seu sangue é vermelho; o meu é azul, ou, agora, verde e amarelo positivista. E ainda que o seu sangue, vermelho, tenha me gerado, eu, estátua sem rosto, nego sua existência; você, o outro que eu proíbo de existir. Apesar disso, não me reconheço homem transformado em sal, imagem de ausência que se materializa, paradoxalmente, no que fala, mas não diz; no que cala e não denuncia; no que não pensa. Vejo-me semideus.


O sangue de outros homens sobre a Terra é desimportante aos cidadãos de bem, às famílias conservadoras fechadas em seus núcleos, à lama do lucro derramada sobre vidas. Além de tudo, já é carnaval, e os deuses não pagãos querem celebrar esse sangue nas ruas. Mas apenas criam um carnaval com ar macabro e ridículo ou, como diria Beauvoir, um mal-estar que altera o esplendor dos dias mais belos.


Alguns dionísios, porém, não se sabem formigas em um formigueiro. Sabem que todos quer dizer também cada um, e bastam nossos olhos para que ruas com saídas existam; bastam nossas vozes para que o Brasil profundo tenha voz, caso contrário, não haveria sentido nestes festejos populares, nestas manifestações sincréticas dos costumes pagãos em tempos de paladinos amorais, asquerosos, grotescos, risíveis. Estes se sabem instáveis frente ao sangue do povo.


Um quê existencialista recria o mundo na alegria desabrida, irreprimível, crítica deste carnaval. Lembra que cada homem é responsável por tudo e que, apesar de ser fácil pagar com o sangue dos outros, pode haver espaço para distinguir o homem na massa e hastear a bandeira branca.

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