Ninguém deseja a noite. Porque a noite é feminina.



O filme "Nadie quiere a la noche" (2016) de Isabel Coixet conta a história da americana Josephine Diebitsch Peary, mulher do Tenente explorador Robert Peary, cujo projeto era encontrar a extremidade do Pólo Norte. Josephine faz do projeto do marido o projeto de sua própria vida e o filme conta a história de quando Robert decide partir em uma viagem e ela fica à espera do retorno do marido acampada no meio do Ártico onde enfrenta as intermináveis semanas do inverno polar. É neste cenário e nesta circunstância que se dá o encontro de Josephine Peary (Juliette Binoche) com a esquimó Allaka (Rinko Kikuchi).


O filme começa com a cena de um paredão de neve desabando e a voz de uma mulher que conta que, mesmo hoje, passados os eventos que ela vai narrar, mesmo no conforto da sua vida presente, há momentos em que ela fica paralisada pela lembrança “de sentir a noite polar perfurando o seu corpo, e que nada pode aquecê-la”. É a voz de Josephine Peary anunciando a história que vamos conhecer através das suas lembranças.


Para pensar sobre este filme podemos tomar alguns auxílios da crítica literária feminista que lê as autoras mulheres e, da perspectiva de gênero que, de uma maneira geral, interpreta expressões culturais de autoria feminina ou masculina, e olha tanto para a representação das personagens femininas, como para o que as mulheres produzem como artistas. Mesmo sem analisar a obra memorialística escrita de Josephine Peary, podemos pensar tanto na conversa de Coixet com a histórica Josephine Peary como no que acontece entre as protagonistas do filme, Josephine e Allaka.


Esta Allaka, que poderia lembrar-nos da Pocahontas ou da Malinche, mas que aqui, também numa perspectiva de gênero - esta que tem um olhar crítico, reflexivo, feminino e feminista sobre as mulheres – não aparece simplesmente como uma tradutora entre culturas, mas como uma intérprete e tradutora de si mesma.


O inverno polar se aproxima, Josephine tomada de determinação e coragem para esperar o marido decide permanecer num lugar inóspito onde há, no meio da vastidão gélida, um barraco em ruínas e um iglu. Todos estão partindo, o inverno polar está chegando e as condições de sobrevivência são impossíveis. Ela permanece contra todos os avisos dados aos nativos pela natureza, que para eles é sábia, e decide esperar pelo marido. Ela no barraco e como descobrimos a seguir, Allaka, uma esquimó, no seu iglu.


Duas mulheres perdidas numa paisagem devastadora esperam pelo mesmo homem. Uma é urbana, rica, frívola, colonizadora cruel e a esposa oficial de Robert Peary, a outra, uma esquimó nativa e simples, que não domina o idioma da outra, mas que a entende mais pelos gestos e expressões, e que responde às questões da outra com uma lógica própria em que prioriza a solidariedade e o cuidado entre as pessoas, sabendo da vastidão do mundo e das almas, muito mais importantes do que o projeto individual bem-sucedido das pessoas. Josephine tenta fazê-la entender que do mundo de onde ela vem as pessoas são donas, são pertencentes a algo ou a alguém e que isto é o que lhes dá sentido na vida. A esquimó não entende, defende-se, acredita que o mundo é imenso e que cada alma é o mundo e para quem o sentido de estar no mundo é o das pessoas se cuidarem e se ajudarem entre si. Estabelece-se, assim, um diálogo enviesado entre as duas que terão uma missão improvável a partir daquele primeiro jantar, que é a de sobreviver juntas num cenário de precariedade e morte.


Talvez seja esta a verdadeira história das mulheres. A que elas vivem e a que elas não contam para ninguém, ou talvez só contem nos filmes que realizam, nos livros que escrevem, e que não são, como gostaríamos, conhecidos e legitimados pelo grande público, lembrando que os homens não leem as mulheres e não veem os seus filmes e que, portanto, não sabem como elas pensam.


Uma palavra muito em voga neste momento, “sororidade”, aparece, muitas vezes, de forma banal no discurso feminista e nas conversas comuns, ela não é nova, ela é muito antiga, ela, diferente de outros termos feministas, fala do começo do primeiro feminismo para que as mulheres tinham de viver em irmandade, uma sisterhood, num fortalecido pacto sórico, de soror, de irmãs, para legitimarem seus desejos e a história de suas identidades.

Mas a sororidade não nos é dada na papinha quando nascemos, nem desce do peito materno como um bônus, ela tem de ser duramente construída entre todas as mulheres, desde a dificílima relação das mulheres com as suas próprias mães, como das mulheres com as outras mulheres, suas filhas, irmãs, amigas, tias, sobrinhas, avós, netas, amantes, etc. E a construção da sororidade demanda tempo, tempo e repetição, entendimento e compreensão de que as relações que as mulheres constroem entre si são as mais importantes de suas vidas, alicerces sólidos que permitem a construção de suas demais relações entre elas e os homens, entre elas e o mundo.


É disto que trata, fundamentalmente, a história que as mulheres contam sobre si mesmas, de como elas se percebem e vivem no mundo junto com as outras mulheres. É disto que trata este filme da Coixet, um filme doloroso, uma história tristíssima, de uma tristeza que só as mulheres conhecem.


Estes encontros imprescindíveis entre as mulheres, e podemos contar inúmeros deles ao longo das nossas vidas, são transformadores e fundamentais, afirmando-nos que as genealogias femininas narradas pela literatura das mulheres, ocorrem quase sempre em primeira pessoa e onde a protagonista, num procedimento memorialístico, resgata ou estabelece uma relação especular com outra, ou com outras mulheres, relação esta, fundamental para um afirmativo e importante desenvolvimento identitário para todas elas. Esta relação especular, que se dá numa tensão permanente de identificação e separação, é vital para o descobrimento da identidade das personagens envolvidas.


O encontro de Josephine com o companheiro do Tenente Peary, Frand Nashtell, que está fora da expedição por conta da sua condição física destruída e pela insensatez daquele projeto que quase lhe tira a vida, lança a Josephine uma incômoda pergunta: “- E quem vai amá-la, Sra. Peary? ” Já que não há garantias de que ele volte, nem de que ele esteja vivo. Uma pergunta assaz inoportuna na qual Josephine não quer pensar. E uma pergunta sobre qual as mulheres não param de pensar. E é a partir da formulação desta resposta que vão depender tantas escolhas e caminhos das nossas vidas. Para a Josephine que trouxe um belíssimo vestido novo para o reencontro com o marido, uma espécie de segunda pele que a esconde de si mesma, esta é uma pergunta muito desconfortável.


Josephine e Allaka descobrem que estão esperando a volta do mesmo homem, marido de uma e amante da outra. Elas esperam sem fim, elas esperam sem medidas, elas esperam mesmo sabendo que podem morrer naquele lugar de impossível sobrevivência, elas esperam o quê, afinal? Talvez Coixet tenha feito um filme sobre como amam as mulheres, elas que amam num mundo glacial, gelado, sem calor ou acolhimento de nenhuma espécie, e sem nenhuma possibilidade de retorno ou de partilha. E quando elas conhecerem sobre esta natureza tomada pela solidão conhecerão do seu desamparo e só assim, salvas, poderão ser elas mesmas. O caminho é por demais difícil, impossível. A frase escrita no barraco pelo próprio Robert Peary diz que “Quando não há um caminho, faça um”. E o nosso caminho é o de desmistificar durante, pelo menos a metade de nossas vidas, a ilusão de que cabe aos homens nos dar conforto, segurança, amor e toda sorte de realizações com o seu aceite, aprovação e afeto.