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Um Estrangeiro em Quarteira ou Apontamentos para uma História


“A luz é quase uma alucinação. Desvenda-nos um panorama de estonteantes sensações. A atmosfera é de uma deslumbrante nitidez. O longe é próximo, a visão completa. A pureza reconfortante do ar parece alimentar-nos. Ao respirarmos uma nova e balsâmica força nos tonifica (...). E, pela noite fora, parecem ouvir-se longínquos chamamentos de sereias, trazidos pelo vento brando. Ilusão que cimenta lendas estranhas, enquadradas no cenário irreal. Sim, todo o litoral Algarvio é uma apoteose de beleza.” Artur Pastor (1922-1999, fotógrafo)


O Estrangeiro chega à cidade. Com um olhar fatigado da viagem, abarca os prédios anódinos, a praia domesticada, o mar imemorial. Resolve deixar para o dia seguinte o aprofundar-se na descoberta de mais um lugar. Certo de que há histórias; incerto se valeria ouvi-las. Havia reservado um quarto em um hotel à beira-mar. De que serve uma praia turística se não pode apreciá-la bem cedo? Mas os balneários são todos iguais... No verão, o sol queima, o céu brilha, tudo é barulho de carros, de crianças, de gaivotas... O Estrangeiro já conheceu tantas cidades turísticas! Agora, mais uma para sua memória, para embaralhar-se com outras de sua infância, de sua juventude, de sua madureza, de sua velhice.


O Estrangeiro no quarto de hotel rumina seu desencanto.


O Estrangeiro, enfim, adormece.


O Estrangeiro sonha.


A cidade é Quarteira. Uma freguesia que é uma cidade; algo inapreensível para quem desconhece as sutilezas administrativas das divisões territoriais da República Portuguesa. (Não esqueçamos: o Estrangeiro é de outro país). Uma cidade-freguesia ou uma freguesia-cidade? Decerto é parte de um concelho: Loulé. O maior concelho do distrito de Faro, que abrange o Algarve, o extremo sul de Portugal.


O Estrangeiro estende na mesinha de seu quarto de hotel um mapa de Portugal. O Algarve é o extremo sul do país. Quarteira está no meio caminho entre o nascer e o por do sol. Entre a Espanha e o Mar Oceano. O Estrangeiro pensa nos navegantes da antiguidade, os primeiros a passarem pelas praias, agora turistificadas, da cidade onde ele está. Talvez ele possa imaginar um cargueiro fenício velejar ao largo do sol estival, rumo oeste.


O Estrangeiro também foi outro.


Após o pequeno-almoço, o Estrangeiro sai para passear à beira-mar. Vê a manhã refulgir no calor, a praia lotada de turistas, todos estrangeiros como ele, mas alguns devem ser moradores, quem sabe? Caminha sem pressa, procurando observar os signos e os índices de uma cidade turística: cartazes no anunciar de ofertas de passeios em barcos, letreiros de restaurantes e cafés escritos em inglês oferecendo english and irish breakfasts, dezenas, centenas de chapéus-de-sol demarcando espaços no areal para famílias inteiras, as plácidas ondas molhando corpos infantes, juvenis, maduros, velhos. Uma típica praia igual a todas as outras praias de todos os verões. Nada de novo sob o sol, sorri o Estrangeiro. Uma quinzena de vilegiatura para remediar nossa condição de Officio Hominis .


O Estrangeiro percebe uma peculiaridade em seu trajeto: em intervalos de algumas centenas de metros, postes com velhas fotografias sinalizam o percurso chamado Quarteira Antiga. Quando ainda não era uma cidade, tampouco vila: apenas uma aldeia piscatória que era introduzida ao turismo massificado. O Estrangeiro atentamente olha as fotografias de pontos de vista diversos; seu olhar vai do preto-e-branco do passado congelado ao presente colorido e em movimento. O hotel antigo e o remodelado. O restaurante com estrutura de madeira que uma tempestade antiga fez sossobrar. Pessoas mortas caminhando no passeio estreito; pessoas vivas circulando no calçadão de pedras portuguesas com elegantes padrões abstratos. Uma aglomeração de locais (notícias da Revolução?), ao pé de uma loja genérica onde hoje é um calçadão anódino repleto de cafés,sapatarias, lojas de roupas. Todas essas fotos apontam para o turista interessado na história do lugar a necessidade de ir além do imediatismo do turismo balnear do circuito “sal, sol e cataplanas” tão comum nos meses estivais nessa pequena cidade-freguesia (ou vice-versa?, a confusão continua na mente do Estrangeiro) de Quarteira. Mas teriam esses indicadores sucesso em fomentar o interesse do turista (também ele um estrangeiro) no passado histórico daquela vila piscatória que se transformou em um lugar concorrido de férias? O Estrangeiro sabe que essa pergunta é subjetiva; afinal, quando se vai a uma praia, o que menos se espera é uma curiosidade sobre o passado da mesma. O verdadeiro motivo é aproveitar o calor, as águas do mar, o descanso à sombra de um chapéu-de-sol, a culinária típica, o dulce far niente das férias.


Desabado em dúvidas, o Estrangeiro acorda subitamente no labirinto da chamada Quarteira Antiga. Seus pés moveram-no sem que sua consciência soubesse. Com um sorriso de percepção de algo que sempre o agradou, o Estrangeiro viu-se a contemplar velhas casas, de uma singela arquitetura, nada ostentatória, decerto, apropriada a pessoas sem grandes posses. Muitas dessas casas estavam fechadas, com suas janelas e portas cimentadas em tijolos, como se aguardassem uma breve demolição. Placas de venda, algumas desbotadas, em suas paredes, eram apelos resignados a compradores impossíveis. Por quanto tempo essas casas restariam a compor o aparente desordenado casario? O Estrangeiro caminha, um pouco desorientado, entre inexistentes passeios e ruelas sem saída. Curioso, entra e sai destas, fotografando com seus olhos detalhes curiosos de pórticos, escadas e muros, quase todos de um invariável branco caiado. Roupas em varais, gatos vadios circulando sobre os muros, viaturas estacionadas em espaços exíguos Todos detalhes de uma vida quiçá alheia ao frenesi turístico das quadras à beira-praia. Uma vida que segue a rotina sem tempo de um lugar com seu tempo próprio, com a dignidade das coisas e pessoas a vestir o espaço. O Estrangeiro talvez fantasie algo que as fotografias antigas proporcionam àqueles que as vêm: um sentimento de nostalgia, de que tudo era, de uma forma ou de outra, melhor no passado.


Em uma rua quase vazia, o Estrangeiro descobre um café, ou melhor, um snack bar, como parece ser comum aqui e em anteriores lugares onde esteve em Portugal. Senta-se à uma mesa com um café cheio, uma garrafa d´água de vidro, um copo e tempo. Aproxima-se o meio-dia, o sol flagela a brancura das paredes, nenhuma nuvem no céu de rútilo azul dá-se o prazer de sua efemeridade. Faz um calor seco, suportável: não é agosto, ainda. O Estrangeiro medita, entre a complacência do momento e a preguiça do instante. De onde está, ele vê a torre da igreja antiga de Quarteira assomar entre casas e pequenos prédios de dois ou três andares, de uma feiura simpática. Passa alguém de bicicleta. Uma senhora chega à janela de uma velha casa térrea e olha a rua. A vida comum em atividade.

O Estrangeiro apenas observa, na espera de alguma iluminação interior, de um satori básico que o faça compreender o espaço-tempo no qual se insere. Terá, quem sabe, alguns dias inserido naquele espaço urbano, dividido entre o aproveitar-se do sol, do mar e da culinária local, como um reles turista e a curiosidade sobre a origem e a evolução de Quarteira, como um simples amador da História. O estrangeiro estabelece uma rotina para os dias à frente: pela manhã, os prazeres das ondas, dos raios solares e do ócio. Após o almoço (cada dia, uma especialidade gastronômica diferente!), uma investigação empírica da cidade e uma investigação algo rápida de sua história.


Satisfeito com esse propósito que dignifica a sua viagem pelo extremo sul português, o Estrangeiro paga a conta do café e segue rumo ao nascente atrás de um lugar para restaurar as forças, se possível, isento de turistas, pois nosso viajante sabe que o turismo pasteuriza o paladar das gentes.

(continua)

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