Raízes do Brasil: porque ler agora

Atualizado: 13 de Out de 2018



"Somos ainda desterrados em nossa terra". Essa frase está na primeira página de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, um clássico do pensamento fundante nacional. Nossa clara incapacidade de sermos raiz, de nos reconhecermos como povo, de conhecermos nossa própria história, de cultivarmos coesão justifica voltarmos (quem já foi) à obra. Um país indeciso entre Europa e África ainda se divide entre civilização e barbárie.


Do lado de lá, o magistrado que ocupou a cadeira presidencial recentemente – com a viagem do ocupante temporário para tergiversar na ONU – chama a ditadura militar dos anos 60 de movimento de 64. Outro censura a imprensa proibindo entrevista ao preso, político, que já recebeu visitas de, ninguém mais, ninguém menos, que Esquivel, Chomsky, Leonardo Boff, Mujica, Chico Buarque, Frei Beto. Um juiz libera delações requentadas às vésperas das eleições. Um procurador faz jejum em nome de cristo contra habeas corpus à esquerda. No mais, guinadas inexplicáveis de pesquisas de intenção de votos para a direita; candidatos que sobem o monte e recebem sinais divinos de como governar o país.


Do lado de cá, fiéis e eleitores, e não eleitores fiéis, buscam salvadores e redentores; outros se sentem importantes ao dizerem que não vão votar. Não sabem que grandes abstenções, justificadas com os pseudoargumentos de sempre, ajudaram a eleger os de sempre, os do lado de lá. Mas houve também as manifestações #Elenão do último sábado. Em compensação, o #Elesim, no dia seguinte. O primeiro, vanguardista e suprapartidário, foi um marco. O segundo, inadjetivável, foi lavado e esvaziado por uma bela chuva na Avenida Paulista, mas mostrou a face e os dentes. Intolerância e apagamentos históricos - projetos de nação, construidos sistemática e historicamente - se confundem com opinião; dogmas com salvação; preconceito com direito; nacionalismo com neoliberalismo e suas privatizações, para "o país andar". Andar para onde? Mais ainda para o Norte?


Procurei respostas em Raízes do Brasil: parte dela está nessa dialética entre contrários, entre o lá e o cá: novo e tradição; urbano e rural; braçal e intelectual; escravidão, civilização burguesa e capitalismo; democracia (sempre um mal-entendido no Brasil) e ditadura; trabalhadores e aventureiros; ordem e desordem. O que parece ser traço de nosso tempo sempre esteve lá, sobretudo, ele, o homem cordial e suas relações pessoais e afetivas nascidas em seus grupos primários, para quem importa apenas a família, a tradicional, claro. A familiocracia impedindo a sociedade moderna e impessoal. Daí também as justificativas chãs ao golpe: por minha família, pelos meus filhos e meu netos. E assim se mantêm os privilégios hereditários ou, atualizados no neoliberalismo, meritocráticos.


Entre discursos elitistas, autoritaristas, financeiristas, populistas do lado de lá, vamos entre o voto útil e o voto fútil do lado de cá. Entre golpes militares, parlamentares, judiciais, pessoais, vamos como animais que sobrevivem camuflando-se à cor do ambiente, conforme conveniências individuais.


Amém?

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