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O que impede a mídia brasileira de olhar os negros além dos estereótipos?

Atualizado: 13 de Out de 2018



Mahany Pery by Paulo Carotini in "Blackness"

Sou uma mulher das mídias e, por isso mesmo, sua crítica ferrenha e antenada. A comunicação é minha ferramenta de trabalho e tenho um olho clínico no que se refere a notícias do cotidiano deste nosso Brasil.

Ultimamente, ando muito sensível e atenta ao que anda saindo de matéria com pessoas negras como protagonistas. Afinal, para nós, negros desta geração, é muito gratificante ver ilustrado, em páginas de jornais que antes nunca nos enxergaram, o resultado da luta dos nossos antepassados por afirmação e dignidade ao povo negro, desde a abolição da escravatura, há 188 anos, até os dias de hoje.

Se somos personagens de histórias na imprensa, que não estejam estampando páginas policiais ou preenchendo contextos de miséria, como não nos exultarmos com tais matérias? Até porque, há bem pouco tempo, éramos, e ainda somos, em grande parte, invisíveis para a mídia. Tanto que todas as vezes em que um negro se destaca fora dos papéis tradicionalmente reservados a nós na estrutura social, ele chama a atenção. É daí que vêm as clássicas manchetes como “a primeira negra a levar uma medalha olímpica”, “a primeira negra a apresentar a previsão do tempo na TV”, “o primeiro negro a fazer parte da guarda do presidente da república italiano é brasileiro”, e por aí vai.

Essas manchetes não são meros exemplos. Foram retiradas de notícias reais e são corriqueiras em nossos noticiários. Um negro que “chega lá” é, antes, lembrado por sua cor; só depois, pelos seus feitos. Veja o exemplo recente do ministro Barroso, do Supremo Tribunal Federal, ao chamar o colega Joaquim Barbosa de “negro de primeira linha”! A raça do ministro chama mais atenção do que suas competências. E de tão natural ser esse pensamento na sociedade, o ministro autor do racismo, que ele mesmo chamou de inconsciente, se desculpou assim: “Quis apenas dizer que ele era um NEGRO acadêmico de primeira linha”. Claro, assim como ele diria de seus colegas brancos, sobre ser um “BRANCO acadêmico de primeira linha”. Pessoas brancas não têm raça e jamais são classificadas ou nomeadas pelo tom de suas peles.

E porque a sociedade representada pela mídia se importa tanto com a raça e a cor de uma pessoa quando ela é negra? Me pergunto: porque é notícia o fato de uma jornalista competente, negra, apresentar o tempo no canal de maior audiência no país? Qual a importância do fato de uma atleta do Rio de Janeiro, ao trazer a primeira medalha de ouro para o judô brasileiro, ser primeiramente lembrada por sua cor e, só depois, por suas garra e performance brilhantes? Precisamos afirmar que, ao nos destacarmos, somos simplesmente pessoas que chegaram lá como tantas outras, imbuídas de esforço, de determinação, de estudos e de sorte por encontrar o contato certo, o mentor ideal para nos indicar àquele lugar. Mas, como diz a teórica britânica de origem indiana, Nirmal Puwar, em uma sociedade onde pessoas não brancas são “corpos estranhos” e, fora do lugar reservado à normatividade, elas saem da invisibilidade pelo pior modo possível, são continuamente lembradas de sua cor e do que ela significa em termos de origem social.

Isso nos mostra que casos de pessoas negras proeminentes só provocam espanto e viram notícias nos jornais com manchetes apontando para sua cor ou origem porque vivemos em uma sociedade estruturalmente racista. Esta mesma que, desde a instituição do sistema escravagista e até após a sua abolição, classifica indivíduos e decide até onde eles podem ir com base em critérios raciais. Quanto mais escura a cor da pele, mais na base este indivíduo deve permanecer. O nosso apartheid é sutil e, por isso mesmo, perigoso e difícil de combater.

Mas voltemos à questão da mídia. Li um dia desses, nas páginas de uma revista de moda do mainstream, que uma modelo brasileira magnífica está ganhando as passarelas do mundo. Seu biótipo extremamente único tem potencial para lançá-la como a nova Gisele Bundchen. De tão incrível e linda, ela está sendo disputada pelos maiores fashionistas do planeta. Mahany Pery é uma jovem negra de 18 anos, moradora de São Gonçalo, subúrbio do Rio de Janeiro. Com muita garra e lutando contra as barreiras do preconceito, a garota está conseguindo seu lugar no topo do sol, onde merece estar porque é excepcional. Como a revista tradicional chama a matéria sobre Pery, seguida de uma belíssima foto com pose de rainha? “Filha de camelô, brasileira vira queridinha da moda”. Eu não me lembro de nenhuma revista de moda lembrar que Gisele Bündchen teve um passado de riqueza, antes de se tornar uber model. Não encontrei, em nenhuma biografia, o que ela fazia antes de alcançar o sucesso e qual a profissão de seus pais. Tudo o que encontrei sobre a biografia de Gisele antes da fama foi muito sucinto e diz apenas que ela é de Horizontina, interior do Rio Grande do Sul, e descende de uma família alemã. A profissão de seus pais e seu passado não importam. Gisele é grandiosa e isso basta. Mahany também e será mais ainda, mas, antes, será lembrada, o tempo todo, de onde veio e quais são suas origens, porque é negra. Mahany já não é uma modelo principiante. Descoberta aos 16 anos, suas fotos hoje ilustram capas de ensaios poderosíssimos pelo mundo, mas a imprensa brasileira ainda a trata como “filha de camelô”, não importa quão longe ela vá.

Recentemente, em vários jornais tradicionais e de grande audiência, li o caso de uma jovem jornalista de Campinas, São Paulo, que fará mestrado na Suíça e que, por não ter o valor suficiente para custear seus estudos, decidiu fazer uma campanha na internet para levantar fundos. Mariana Tavares é negra e, logo após formada, conseguiu entrar em um programa de formação na ONU. Inteligente e dedicada, sempre esteve entre os primeiros e viveu experiências que jovens com a idade dela e tão negros quanto não viveram. Orgulhosa, ela narra o papel de sua tataravó, Dona Sebastiana Sylvestre Correa que, nascida em 1859 – portanto, ainda na vigência da escravidão –, tornou-se escrava até ser alforriada pela Lei Áurea, aos 29 anos. Com orgulho, Mariana contava o que sua tataravó fazia, como era guerreira e como mudou todo o destino de sua família com sua atitude avançada para época.

Como o jornal chamou a história de Mariana? “Aprovada em mestrado na Suíça, tataraneta de escrava ressalta luta por educação”. Alguém me diga, em sã consciência: qual é o negro ou a negra brasileira que não sejam descendentes de escravos? Por que isso não parece óbvio para quem constrói notícias diariamente neste país? Por que, ao tentar deixar a história de Mariana com o tom de ineditismo esperado do jornalismo, o editor resolveu tachar o histórico da jornalista com algo pejorativo? “Ela vai à Suíça, mas não se esqueça, é tataraneta de escravos”. Pergunte se Mariana se orgulha do fato de sua avó ter sido escrava. Mariana se orgulha por que dona Sebastiana, “mãe de oito filhos, nunca aprendeu a ler ou escrever, mas lutou para que suas futuras gerações tivessem acesso à educação”, diz ela na matéria. Aqui deveria estar o gancho. Então, a chamada poderia ser: “Jovem jornalista faz campanha para estudar na Suíça e se orgulha de sua tataravó, que não sabia ler, ter sido sua maior incentivadora na educação”. Já pensou? Uma mulher analfabeta influenciar toda uma geração a ponto de ter uma tataraneta estudando em uma das melhores escolas de sociologia e antropologia da Suíça? É uma história e tanto! Mas Mariana é negra. Sua humanidade não deve vir em primeiro lugar. Não vende, não chama atenção, principalmente entre um público de internet que não lê matérias, só manchetes. O que tem de gritar primeiro é que ela não passa de uma “tataraneta de escrava”, enquanto que Gisele Bundchen e outras pessoas brancas que se destacam têm “raízes alemãs” ou outras, europeias. São vistas com status e com superioridade em uma cultura que ainda traz resquícios do colonialismo em suas veias.

Nós, negros, queremos e precisamos nos ver retratados na mídia fora das histórias tradicionais policialescas ou de violência que tanto foram e são responsáveis pela formação de estereótipos plantados no seio da sociedade. A mídia faz um grande desserviço ao chamar lindas histórias de sucesso com manchetes atreladas ao lugar comum, de que um negro, não importa aonde ele chegue, será sempre um descendente de escravos, ou uma “filha de camelô”, ou o “primeiro alguma coisa”. Fórmula fatal para dar munição a pessoas com a estatura e com a inteligência de um ministro de suprema corte cometer o deslize racista de se referir a um colega ministro como “negro de primeira linha”. Se isso acontece com ele, o que pode acontecer com pessoas de “segunda, terceira, quarta e quinta linha”, se seguirmos o raciocínio do ministro, que são basicamente educadas e têm sua visão de mundo construída por uma mídia deturpada e que insiste ainda em ver os negros como aberração todas as vezes que um de nós se destaca? A esta pergunta tão complexa, respondo simplesmente: chega de estereótipos, "senhora” mídia. Já saímos da senzala. Falta vocês deixarem a visão de casa grande.


Noemia Colonna é Mestre em Comunicação,

mãe de adolescente, professora, jornalista, mídia social,

leitora voraz, amante da música e outros corpus,

e uma pá de coisas que lhe caiam nas mãos.

De vez em quando dá uma pausa em tudo,

bota o pé na estrada, e se joga no mundo

para "ver e sentir as voltas que o mundo dá".

#Mídia #GêneroeRaça

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