O INESPERADO INSTANTE DE FAUSTO FERREIRA: Revolução e Metafísica


Edward Hopper (Notívagos, 1943) e José Benlliure y Gil (La Barca de Caronte, 1919) na colagem digital do Scheufler

NDA

Nada, nada, nada

Tudo, tudo, tudo

Expiro inspiro expiro

Cada tudo, cada nada,

Dizem, mais que tudo,

Do nada que respiro


Fausto Ferreira

Belo Horizonte 1968


Tive a grata satisfação de conhecer um grande poeta, de estirpe minimalista, com laivos concretistas, mas sem abominar ad nauseam o discurso verbal poético: Fausto Ferreira. Isso deve-se à generosidade de uma escassíssima leitora, quiçá insone e neurastênica, cujo nome o cavalheirismo impede-me de dizê-lo. Basta afirmar a vós, leitores fantasmas, que essa gentil pessoa mandou para meu correio eletrônico uma ligeira nota, vaga e efêmera, sobre a origem do arquivo que estava anexado e uma assinatura breve. Passei o antivírus e descobri, ao abrir o arquivo em formato word, um livro de poesia.


Imprimi aquelas 175 páginas (140 de estudo introdutório crítico de autoria do extinto professor Dr. Carlos Tenório Stuttgarten, Fellow do Arheim College da Universidade Luterana de Ostenmor, Suécia) e devorei os poemas, com assombro e temor. Já a introdução, embora rigorosamente acadêmica, soube-me mais indigesta.


Pesquisando incessantemente pela Grande Teia Mundial, descobri que o Dr. Tenório, como era conhecido pela sua família, nasce em Patos de Minas, MG, em 1920. Aos 16 anos muda-se com os pais (Hans Philip Stuttgarten, comerciante abastado e ex-combatente alemão da I Guerra Mundial, e Maria Luzia Freitas da Matta, prendas do lar) para Belo Horizonte, com o fim de concluir seus estudos secundários. Em 1939, ainda com a família, transfere-se para a Paulicéia. Gradua-se em Letras (Filologia Germânica) em 1945, na USP, com a tese Alguns indícios de Aramaico no dialeto da Turíngia, que teve uma enorme acolhida no meio acadêmico brasileiro, levando o jovem e brilhante bacharel em Letras a Inglaterra em 1948, para estudar como fellow na Universidade de Barrow-on-Furnes. Residiu na Inglaterra, primeiramente, e depois na Alemanha, por um total de 40 anos, ainda com uma bolsa de estudos, desta feita do governo alemão. Estabeleceu, na sua longa temporada européia, as diretrizes básicas dos estudos da Nova Filologia Germânica, como foi denominada essa verdadeira revolução na pesquisa relacionada às matrizes vococonsonantais das línguas de índole germânica (principalmente com relação ao protobávaro, que seria a Ursprache de TODO o dialeto falado na Fritzkriegstraße, em Munique).


Obteve honrarias acadêmicas por todo o planeta, sendo seu nome cogitado para receber das mãos do presidente (ele mesmo) da Academia Planetária de Filologia o prêmio Bedrich Caspar Von Schelling, o Nobel da Filologia. Naturalizou-se alemão em 1967. Faleceu em 1988, aos 68 anos, de ataque cardíaco, em sua cidade natal, onde estava de férias a visitar parentes. Seus restos jazem no Pantheon der Philologen da Academia Planetária de Filologia, em Munique.


Pude constatar que o Dr. Carlos Tenório Stuttgarten conhecera o poeta Fausto Ferreira em Munique, em fevereiro de 1974. Um acaso de eventos fortuitos e banais levara Fausto a esbarrar no Dr. Carlos Tenório no metrô e deixar cair a pasta de couro marrom que carregava. Nela se encontravam os originais de Água Pesada, o primeiro (e único) livro de poesia de Fausto Ferreira, refugiado político, ex-militante da ALN, fugitivo do então governo militar brasileiro, gestão Médici.


O Dr. Carlos Tenório, que se achava em Munique para um congresso de Filologia (defenderia uma comunicação ousadíssima sobre As origens do Carélio e a sua relação com o Bávaro do Sul: uma análise diacrônica), recolheu a pasta e ao tentar avisar o seu proprietário pelo descuido, percebeu que o mesmo havia desaparecido na multidão. Lamentou o ocorrido e seguiu para o Hotel Zeitgeist, onde estava hospedado. Procurou em vão alguma indicação do endereço do proprietário na pasta de marca Hermès (presente de uma namorada de Fausto Ferreira, chilena, filha de um general legalista, posteriormente assassinado pela ditadura, não sabia o Dr. Tenório) e nos papéis datilografados e rabiscados. Ao deitar-se, mais tarde, lançou os olhos para os papéis e pensou que os devesse ler alguma hora. Apagou a luz e dormiu. Nesse exato instante, no outro lado da cidade, perto de um parque, Fausto Ferreira morria atropelado por um motorista embriagado. (De acordo com o relatório da polícia; mais adiante veremos que não foi bem assim). Estava atravessando a rua, matutando onde teria perdido a pasta, quando uma BMW surge do nada e estraçalha a carreira poética de Fausto Ferreira.


O distraído poeta nasce em Teófilo Ottoni, MG, no dia 7 de setembro de 1941. Com nove anos perde os pais (Geraldo Ferreira, dono de uma lapidadora de pedras semipreciosas, e Maria das Dores Viana Ferreira, dona-de-casa) em um acidente de trem e é criado por uma tia materna solteirona. Com 14 anos vai para Vitória, ES, estudar e trabalhar como caixa de um armazém de secos e molhados de propriedade de um primo-irmão de seu pai. Com 18 anos ingressa nos quadros do PCB, fazendo a militância de base. Aos 20 anos, é aluno na UFES, no curso de História, onde desenvolve intensa atividade política. Com o golpe de 1964, assume uma postura de semiclandestinidade. Em 1969, milita na ALN e toma parte em diversas atividades de resistência violenta à ditadura militar brasileira. Em 1970, um aparelho da ALN cai em poder do DOI-CODI em São Paulo e uma caderneta de endereços é encontrada com um nome, Fausto Ferreira, em destaque. Dois dias depois, Fausto cruza clandestinamente a fronteira de Uruguaiana em direção a Buenos Aires e daí ao Chile. Recebe asilo no Chile e retoma as atividades políticas, acreditando na utopia de Salvador Allende. Quando do golpe assassino de Pinochet, em setembro de 1973, Fausto Ferreira pede asilo, mais uma vez, desta feita na embaixada da Suécia, junto com mais 12 companheiros de resistência. Em janeiro de 1974, chega a Estocolmo. No mês seguinte, vai a Munique, visitar um velho amigo, também exilado, que conhecia alguns editores em Portugal. Não consegue entregar os originais de seus poemas com as últimas correções para o amigo, extraviados no metrô, como já vimos. Numa noite aziaga, um carro, dirigido por um agente de um comando anticomunista vinculado aos órgãos repressores das ditaduras do Cone Sul, acaba com a vida de Fausto Ferreira aos 33 anos de idade. (A procedência do motorista fora revelada em 2014 por uma testemunha perante à Comissão da Verdade do Governo Brasileiro, na apuração dos crimes do Regime Militar).


O professor Carlos Tenório, ao ler os manuscritos de Água Pesada (título como era do desejo do infausto Fausto Ferreira), renunciou ao preconceito anteriormente cultivado de que a ideologia comunista não havia inspirado nenhum poeta à altura de Rudyard Kipling. Embora adorasse com veemência o autor de White Men´s Burden, Dr. Tenório achou por bem merecer a consideração de ler e reler, infinitas vezes, aqueles versos de uma construção impecável e, mais ainda, debruçar-se sobre eles com o olhar clínico de filologista.

O Dr. Carlos Tenório conhecia praticamente todo o corpo docente de todo departamento de línguas e literaturas neo-latinas de toda a Europa. Ele próprio, com o auxílio de uma diligente estudante de Português da Universidade Livre de Berlim Ocidental (Erika Dreckmenschaupfterstumpf, loura de olhos verdes, bolsista do governo alemão e, nas horas vagas, modelo e espiã da República Democrática Alemã), trabalhou nos manuscritos, fazendo-lhes a ecdótica inicial. Contatou diversas editoras de poesia da Europa Ocidental, mas infelizmente nenhuma se interessou pela publicação daqueles versos.


Os anos se passaram e Dr. Carlos Tenório Stuttgarten dedicou-se a seu costumeiro trabalho de filologia neogermânica, desta feita, no estudo das línguas do tronco jê (América do Sul) e a sua relação com o protofrísio. Por este magistral, estupendo, fantástico e tedioso estudo, ele recebeu o tão almejado prêmio Bedrich Caspar Von Schelling, no ano de 1987. O dinheiro do prêmio (12.654,45 dólares), ele doou para o Lar do Filologista Aposentado F. Nietszche, sito em uma pequena aldeia da Bavária Central.

Quando da morte do eminente Dr. Carlos Tenório Stuttgarden, no verão de 1988, na cidade aprazível de Patos de Minas, Estado de Minas Gerais, Brasil, um neto foi o encarregado de ir à Europa, transladando o corpo que, por desejo expresso do falecido, deveria ter um lugar no Pantheon der Philologen. Voltou, após dois meses de Europa (saudoso do pão de queijo da Tia Zica), com dois containers cheios de livros e papel, de propriedade de seu avô.

Na arrumação que se sucedeu, o manuscrito da ecdótica inicial de Água Pesada veio à tona e foi passado adiante, até encontrar as mãos de uma professora universitária da UFMG, do Curso de Letras, que estava fazendo uma pesquisa sobre a literatura da luta armada no Brasil (1968-1974). O mais é de conhecimento de todos aqueles poucos e raros e loucos que estão lendo até agora e até aqui chegaram: recebi o livro Água Pesada, com seu estudo introdutório do reverenciado Prof. Dr. Carlos Tenório Stuttgarden, esperando apenas uma editora atrevida e generosa para que ele saia de um injustíssimo esquecimento.


Ora, vou apenas à guisa de ilustração, transcrever um poema algo sombrio de uma época com certeza sombria de um poeta-ativista quiçá sombrio, que soube que a política e a poesia são sombrias demais para um homem só:


SARJETA


O grito não mais soa

Na noite suja

O grito do rapaz está quebrado

Como a sua perna direita

O corpo, trapo viril

Está esperando por Caronte

A barca preta e branca

Ainda não chegou

Um sanduíche de carne

E um grapette

No balcão do bar

Caronte toma uma pinga


Fausto Ferreira

Santiago do Chile, 1972


A evidência de um tempo de chumbo está bem clara nos versos acima transcritos. A tortura, a náusea e a indiferença do torturador evidenciam-se aqui, guardando tributo aos que morreram em uma luta suicida (e talvez necessária). Quando um dia escreverem a poiética dos tempos de trevas do Brasil de 1968/74, espero que não se esqueçam de Fausto Ferreira, mineiro guerrilheiro, fugitivo forasteiro, atropelado por um carro sorrateiro. (Reconheço que não ficou lá grande coisa essa frase, mas e daí?)

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