Morte abençoada no sertão e na capital


A vida de um homem não vale mais do que 8 dólares, disse o democrata colombiano Héctor Abad Gómez. Ele mesmo foi assassinado antes de seu artigo ter sido publicado em Medellín. Na Colômbia, pouco se morre de doença, diz Eduardo Galeano. O matador pergunta: "Como vosmecê quer o cadáver?" Recebe adiantamento de 50%, carrega a pistola e faz o sinal da cruz, pedindo a deus que o ajude em seu trabalho. Atira. Se não errar, recebe os outros 50%, vai à igreja e, de joelhos, agradece o favor divino.


O primeiro agradecimento do presidente das armas no Brasil 2019 também foi a deus. Depois, agradeceu aos "brasileiros de bem" e voltou a agradecer a deus. Prometeu livrar a nação da submissão ideológica, mas não precisou dizer qual. Já sabemos. Voltou a agradecer a deus. Ameaçou o futuro prometendo que as próximas gerações o seguirão. Voltou a impor a tradição judaico-cristã neste que é um dos países mais sincréticos do planeta.


Outro dia, fui lavar o carro. A lavadora, acompanhada de seus dois filhos adolescentes, queixava-se de uma cliente que reclamara do serviço e do preço. A lavadora de carros, com dedo em riste, a nova marca presidencial, me contou então o que tinha respondido a essa cliente: "Somos trabalhadores honestos. Se a senhora não quiser pagar por nosso trabalho, como eu e esses meninos vamos viver? Sem emprego, eles vão assaltar, e deus há de abençoar que a senhora será a primeira na mira deles."


Morte matada sob bênção divina é antiga. Guimarães Rosa já disse que o sertão é onde manda quem é forte: deus mesmo, quando vier, que venha armado! Ou deus é um gatilho. Há dois dias, oficializou-se, sob a autoridade presidencial, o traço comum entre a figura dos pistoleiros, dos cabras, dos capangas, da maioria dos eleitores e dos omissos eleitoreiros: matar por vingança e por dinheiro, neste caso, em nome do deus mercado.


Lampiões modernos e seus padins cíceros se reencontram na urbe, apoiados pelos discursos e pelas ideologias neoliberais. Como disse o novo presidente: agora, é deus acima de tudo. A saber que deus é esse.

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