Lixão, objetos e natureza-morta


O fechamento do Aterro Controlado do Jóquei – o Lixão de Brasília ou o Lixão da Estrutural –, no sábado, 20 de janeiro de 2018, talvez seja comparado, no futuro, à remoção do Morro do Castelo, quando o Rio de Janeiro era a capital que se preparava para as comemorações do centenário da independência, num cenário de conflagrações políticas internas e externas, que faziam políticas de higienização e de limpeza racial passarem por gestos de civilização e modernização.

Uma espécie de Quilombo moderno, a Cidade Estrutural não era onde hoje é – o núcleo original foi deslocado para abrigar a Cidade do Automóvel – e nem tinha o que hoje tem, graças à luta social que trouxe água, luz, transporte, pavimentação e equipamentos públicos de educação, saúde, segurança e administração pública. Situada a poucos quilômetros e minutos do Plano Piloto, a cidade está pronta para ser valorizada, “gentrificada”, isto é, a ter sua gente pouco a pouco substituída, coisa que acontece com o próprio negócio do lixo, que no futuro será exclusivo de engenheiros.

Com suas conquistas, a Estrutural é hoje uma periferia que tem uma periferia – a chamada Chácara Santa Luzia –, criada a partir da remoção, em 2008 ou 2009, de cerca de 15 famílias de chacareiros para a chamada Fazenda Monjolo, no cerrado do Recanto das Emas, que abriu o vácuo para a formação de uma comunidade com cerca de 12 mil pessoas, numa ação desastrosa que remonta à atuação da Subsecretaria de Assuntos Agrários do Governo Arruda. Esse processo foi viva e inutilmente denunciado a autoridades, políticos e imprensa por Adoaldo Dias de Alencar – o Duda, o Repórter da Estrutural – uma de suas vítimas.

Santa Luzia mal começara a nascer em 2010, quando a Estrutural figurou entre os 36 “aglomerados subnormais” detectados em Brasília pelo censo. Segundo o IBGE, a expressão – tão higienista – denota um “conjunto constituído de, no mínimo, 51 unidades habitacionais (barracos, casas etc.) carentes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais, ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular) e estando dispostas, em geral, de forma desordenada e densa”.

A definição consta do relatório “Análise de vulnerabilidade da juventude negra no Distrito Federal – Subsídios à implantação do Plano Juventude Viva”, publicado pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) em outubro de 2013, e no qual se informa que 3,6% dos habitantes do Distrito federal residem em aglomerados subnormais, onde 70,4% da população são negros – uma média, já que na Estrutural o percentual apenas de jovens alcança 80,2%.

Parte dessa conversa tive em setembro, na Casa dos Movimentos, sede do Movimento de Educação e Cultura da Cidade Estrutural (MECE), quando me desincumbi – na medida de minhas forças e fraquezas – da missão de iniciar uma “análise de conjuntura”, tarefa para a qual me muni de textos de Maria Cristina Fernandes – a grande jornalista do Valor Econômico que Paulo Henrique Amorim excetua do Partido da Imprensa Golpista (PIG) –, Rudolfo Lago, Luis Nassif e Raul Zibechi.

Zibechi é autor que vim a conhecer no grupo de estudos sobre América Latina formado em 2009 por Maximino Basso e Luis Delgado, professores de filosofia da Universidade Católica de Brasília (UCB). Luis Delgado foi afastado da universidade em 2013 na mesma leva que fez Newton Scheufler deixar a Católica, em meio à crise política na qual a UCB teve – ao fim e ao cabo – cinco reitores diferentes em quatro anos. Basso e Luis foram responsáveis pelo projeto de extensão denominado Teia do Conhecimento, uma parceria entre a Filosofia e a Medicina que fez a universidade se aproximar do MECE e mobilizar docentes e discentes de vários outros cursos.

Em outubro, Zibechi foi tema de texto de Paíque Duques Santarém (com colaboração de Diguilim, Dani Rueda e Raíssa) – “Raul Zibechi no Cerrado – uma visita necessária, um debate por fazer” –, a anunciar a vinda do jornalista uruguaio ao Mercado Sul, em Taguatinga, e replicado nas páginas do Le Monde Diplomatique Brasil e do Instituto Humanitas Unisinos.

Não sei se Zibechi veio mesmo. Sei que a Paíque fui apresentado, eu próprio, em meados dos anos 2000, por Jul Pagul, que já ideava o Balaio como espaço de transações e negócios revolucionários e por cujas mesas efetivamente passaram os protagonistas de várias lutas mencionadas no artigo de Paíque e companheiros/as – por cotas raciais; passe livre estudantil; ocupação da Reitoria da UnB; defesa do Santuário dos Pajés; Fora Arruda, entre outras.

Dos escritos de Zibechi disponíveis no site Rebelión, socializei entre as/os colegas no MECE: “Lula, de mago a franco-atirador”, de 04/05/2015, com análise sobre o interesse geopolítico de quebrar a Petrobrás e a Odebrecht, que constrói o submarino nuclear; “Golpe al corazón de la izquierda latino-americana”, de 14/03/2016, que aponta o genocídio da juventude negra como primeiro ponto do fracasso da era Lula-Dilma; e “La nueva derecha em Brasil”, de 02/04/2016, que assinala a eleição do DCE da UnB, em 2011, como marco da ascensão da nova direita no Brasil.

O exercício inicial de análise de conjuntura restou prejudicado pela ausência de Luis Delgado, mas me ajudou na reaproximação com o MECE e seus projetos, entre eles o lançamento do livro Primavera na Estrutural (não sei se o título será esse), com sete autores locais – Luan Diego Lopes, Maxwell T., Bruno Efe Araújo, Arthur Félix, Almir Gomes, Symeia Santos e Sheilla Reis.

Trata-se de iniciativa literária devida a Almir Gomes, o nome por trás da Abadia Catadora, editora popular que produz livros encapados com material reciclado, diretamente inspirada nos moldes da experiência argentina de Eloisa Cartonera. “A Menina e o Rio”, do próprio Almir, foi lançado na 1ª Bienal do Livro de Brasília, em 2012, quando a Abadia Catadora debutou com mais dois títulos: “De mãos abertas e punhos erguidos”, poemas do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, e “Cinco dificuldades de dizer a Verdade”, de Bertolt Brecht, em tradução de Vitor Pordeus, o músico e imunologista criador da Hotel da Loucura, no Rio de Janeiro.

Além da referida editora, o MECE está à frente de uma série de iniciativas que refletem o prestígio de sua coordenadora, Maria Abadia Teixeira, entre as quais: a criação e funcionamento de um banco comunitário local, que tem uma moeda própria chamada “conquista”; uma biblioteca comunitária iniciada com livros encontrados no Lixão; e o Ponto de Memória que recupera a história oral da Estrutural, a qual, um dia, poderá constituir contraponto à narrativa heterônoma e seletiva dos jornais que sempre servem de fonte para os cronistas da história.

Guardo do esforço docente na UCB – além do trabalho de extensão universitária que me levou ao MECE – a boa lembrança de orientar a produção de trabalhos de conclusão de curso como o de Fernando Augusto dos Santos, em 2010. Nascido de suas preocupações sobre a influência da mídia no crescimento dos lixões em consequência do consumo e do desperdício, o livro reportagem de Fernando tem um relato marcante de sua visita ao Aterro do Jóquei, denominado O Vale dos Descartados.

Pode ser que a revista Piauí, se não dormir no ponto, dedique uma seção Despedida ao Aterro do Jóquei. Eu fiz mais que acender uma vela pelo vale dos objetos descartados. Na última sexta-feira, pus-me a contar os objetos que levaria ao trabalho e produzi algumas naturezas-mortas que dão conta da condição atual da minha pessoa ambientalmente ativa em Brasília desde 1985.

Por razão didática – uma forma de estimular o interesse de alunos pelo estudo inicial da sociologia –, ocorre de eu haver me familiarizado com a chamada sociologia dos objetos, termo que eu mesmo esgarcei para fazer acolher numa mesma gaveta referências que vão de Jean Baudrillard e Abraham Moles a contribuições nativas, como as de Ernani Silva Bruno (que recenseou o mobiliário na literatura brasileira) e o ensaio conjunto e interdisciplinar que Fernando Novais e João Manoel Cardoso de Mello prepararam para o 4ª volume da História da Vida Privada no Brasil (Companhia das Letras, 1999), e que dão cor local à preocupação dos franceses.

Antes de “À sombra das maiorias silenciosas – o fim do social e o surgimento das massas” (Brasiliense, 1985), Jean Baudrillard se lançara, em “O sistema dos objetos” (Editora Perspectiva, 1974) à tarefa de examinar sociologicamente os objetos, uma forma original, na transição dos anos 1960 e 1970, de renovar uma discussão que buscava articular sociedade de consumo, publicidade e a temática da forma-mercadoria. Seu livro foi traduzido e posfaciado por Zulmira Ribeiro Tavares, pensadora poderosa da Comunicação, nada conhecida enquanto tal, e fabulosa intérprete de Paulo Emilio Salles Gomes, o vocalizador da dialética do localismo e do cosmopolitismo no cinema brasileiro.

Segundo o “Dicionário de Filosofia”, de Didier Julia (Editôra Larouse do Brasil, 1969, tradução de José Américo da Motta Pessanha), a palavra objeto é termo latino que designa “qualquer coisa que se ofereça à vista”. Esta acepção é filosoficamente restrita – capacitista, até, como se diz hoje –, mas bem afinada, creio, à Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei 12.305, de 2010, que preconizou o fechamento dos aterros a céu aberto.

A definição exclui considerações sobre natureza, finalidade, estado, cor, forma, peso e textura dos objetos, mas lega um problema metodológico de definição sobre o que faz a unicidade da coisa, de onde tive que me haver com os paradoxos que fazem a unidade e a totalidade, o singular e o aglomerado, serem um, cada um. Assim, 20 folhas A4 foram contadas como 20 objetos, e um texto de 20 folhas, grampeado, como “um” só.

Pois, sim, esvaziando carteira, a bolsa e considerando as roupas, contei 232 objetos. Era coisa demais – não resisti a enviar uma última mensagem ao Lixão moribundo da Estrutural: duas folhas de extrato mensal do Banco do Brasil, de 01/02/2018; dois tickets de entrada no estacionamento do Hot Park, no dia 10/02; recibo de compras no Superbom; cartão provisório de Plano de Saúde; quatro guias de cliente Visa, de 25/11/17, 12/01/18 (2), 13/01/18; e uma caneta vermelha que escrevia mal e demorará uns 400 anos para ser “metabolizada”.

Noves fora, no caso 11, peguei o ônibus com 221 objetos, pensando que tudo isso deve ter um significado.


Lunde Braghini é jornalista, mestre em comunicação (UnB),

ex-professor do Centro Universitário de Brasília (UniCeub)

e da Universidade Católica de Brasília (UCB),

diz-se inimigo do racismo, da homofobia, do sexismo,

do racismo de novo, e do capitalismo

#Política #GêneroeRaça #Cultura

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