Frans Hals: O Drama da Pintura




John Berger, no hoje clássico Modos de Ver, fala-nos da mistificação da vida dos grandes mestres da arte. É fato que a vida de todo artista está envolta em uma névoa de mitologia. A isso adiciona-se a falta de detalhes biográficos dos artistas do passado, o que provoca a substituição da História por uma mistificação muitas vezes tendenciosa, a qual esforça-se por inventar uma estória, que possa justificar, retrospectivamente, o papel das classes dirigentes. Alguns artistas encarregam-se pessoalmente de construir a própria mitologia, como Salvador Dalí e Picasso. Para os (extra)ordinários, os mitos e as lendas são quase uma condição de seu nome na história. Há poucos dados sobre a vida de Frans Hals. Há muitas controvérsias, dúvidas e mistificações, obviamente. Sabe-se que morreu na miséria, como Rembrandt. Por muito tempo foi considerado um beberrão, no entanto estudos recentes parecem revelar falsificações em sua biografia. Sua famosa técnica de pintura alla prima, sem estudos ou esboços, também tem sido questionada. Muitos autores nos fizeram acreditar que Hals não possuía técnica muito apurada e que pintava sem correções ou desenhos preparatórios. Também neste caso estudos científicos e técnicos recentes demonstram o contrário. Por vezes o esboço era feito com giz ou então Hals pintava sobre uma camada cinza ou rosa, para em seguida completar o quadro. Tais descobertas demonstram que o pintor utilizava seu virtuosismo desde o início da tela e que a alegada falta de técnica pertence ao reino da mistificação. Mas, é sobre um drama, que se desenrola em suas últimas pinturas, que queremos falar. Os dois últimos quadros importantes do pintor retratam os administradores e as administradoras de um asilo de anciãos do século XVII na cidade holandesa de Haarlem. Foram encomendas oficiais. Hals, então com mais de oitenta anos, havia sido demitido pela municipalidade de Haarlem. Enredado em dívidas ele conseguiu um empréstimo de carvão da Caridade Pública, caso contrário morreria de frio. São os membros dessa mesma Caridade Pública que, então, posavam para Frans Hals. Não há nenhuma prova de que Hals os pintou com ressentimento, mas é inevitável não reparar nas expressões dos administradores. Rostos severos, disciplinadores e decadentes, um deles, por exemplo, foi representado com o chapéu de lado sobre a cabeça e o olhar perdido como se estivesse bêbado. Há controversas interpretações para os quadros, poucas certezas nos orientam, pois sabemos muito pouco sobre Hals e sobre os administradores que encomendaram a obra, não se sabe como eram suas relações. No entanto, sob uma composição rítmica perfeita, por trás das pinceladas precisas que geram sutis modulações de profundidade, negros radiantes em contraste com brancos poderosos e os vívidos tons de carne, desenrola-se um drama, representado pelo confronto do olhar fixo dos administradores com o de um velho pintor desempregado, que perdeu sua reputação, que vive quase como um indigente, e que depende da caridade para não morrer de frio. E, no entanto, este velho pintor deve manter sua objetividade, deve superar sua condição, para não ver seus modelos com os olhos do indigente que recebeu carvão para pintar retratos, deve, neste momento, ser o genial e incomparável Frans Hals. É este o drama que uma visão crítica, mais do que estética, percebe no interior da pintura. É esse o verdadeiro tema do quadro. Como todo grande pintor Frans Hals pintou muito mais do que um retrato, pintou a condição humana, seu equívocos, suas beleza e suas tragédias. Ars longa, vita brevis.


Newton Scheufler é Professor,

Artista Visual, Biólogo e Antropólogo.

É um dos culpados pela criação

do projeto Casa da Mão

#Arte

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