Fascistas, Neoliberais, Antipetistas e a Imaginária Capa de Herói do PT

Atualizado: 11 de out. de 2018


Imagem de Newton Scheufler: Batman III

As eleições do 1º. turno/2018 mostraram que os aparelhos ideológicos do Estado – escola, igreja, mídia, justiça – cumpriram e cumprem muito bem suas missões: adestrar, alienar, dogmatizar, domesticar e colocar de joelhos boa parte de gerações e gerações. Mas essas eleições foram além: mostraram que esses mesmos aparelhos mantêm um belo e estável casamento com os aparelhos repressores do Estado – governo, exército, administração, polícia, tribunais e prisões. Juntos, levaram uma maioria de pretos, de pobres, de mulheres de todas as cores e classes sociais a votarem, não em uma ideologia de direita, o que já seria um desastre, mas no fascismo ultraneoliberal.


Não vou tentar explicar esse fenômeno porque já há gente muito mais preparada e competente do que eu tentando fazê-lo nas perspectivas psicológica, filosófica, econômica, política, histórica, sociológica, antropológica, discursiva (como eu mesma). Também já há muitos especialistas investigando e explicando as causas e as consequências do antipetismo. Este, porém, tem um detalhe: em que pesem as falhas do PT, os antipetistas comuns parecem desconhecer o jogo de tensões em que qualquer partido joga, sobretudo, quando alçado ao poder.


AVENTURA PROGRESSISTA EM PORTUGAL



Imagem de Newton Scheufler

Em 2016, estive na Universidade do Porto para apresentar, aos portugueses, uma análise do discurso de reeleição de Dilma Rousseff. Eu investigava os pontos em que a agenda governamental reeleita alinhava-se ou resistia às forças do neoliberalismo dos mercados centrais, que sempre avançaram sobre a América Latina, mais ainda na fase aguda da globalização. Se há um forte jogo político e econômico internacional a serviço do capitalismo desenfreado, não se pode dicotomizar a complexidade do cenário eleitoral entre direita-solução-de-seus-problemas (fórmula do marketing de 5a. categoria) e esquerda traíra, que poderia ter salvado o Brasil com a capa do super-homem já em 2003.


Os portugueses receberam friamente minha análise, mas ouviram que, no 2o. governo, Dilma Rousseff sustentou as investidas das parcerias público-privadas (PPP) sem esclarecer, como todos os outros presidentes, que, nelas, há um papel para o governo e outro para o comércio. O primeiro cria as condições para o segundo, assume todos os riscos e, no globalismo, deve saber quando intervir e quando se retirar. Essa lógica atende muito mais aos interesses empresariais do que à população alvo das políticas públicas.


Mas ouviram também que, apesar desse alinhamento ao avanço neoliberal na esfera pública, Dilma privilegiou o povo brasileiro pela agenda de reequilíbrio do poder entre agentes sociais, sobretudo, mulheres e desfavorecidos, e empresários e grandes produtores. Reafirmou o poder do próprio Brasil propondo reequilíbrio entre nações com a criação do Banco de Desenvolvimento do Brics. Ela defendeu modelos alternativos de práticas sociais globais, multilaterais. Privilegiou reescalas nas novas relações globais e locais. Ameaçou velhas escalas nacionais. E aí...


O QUE OS ANTIPETISTAS NÃO SABEM


O Brasil, como os demais países dependentes, sofre pressão dos arquitetos ocidentais do Consenso de Washington do FMI, cuja narrativa associa insucessos econômicos a intervenções estatais e sucessos econômicos a mercados abertos. Por isso, os blocos regionais, caros a alguns petistas, são mecanismo para gerar impactos no mercado global e também para impedir a unificação desse mesmo mercado global, dando suporte a economias, a políticas, a valores e a culturas divergentes, como a nossa. Alguns antipetistas, colonizados por uma educação acrítica, por doutrinas religiosas caça-níqueis e por uma mídia de massa já inadjetivável, nem sonham que o ambiente internacional dos think tank é muito mais desafiador para a economia doméstica.


O Governo Dilma oscilou entre ditames neoliberais e resistências, em um duplo movimento de descentralização das forças hegemônicas internacionais e de parceria. Não rompeu com seu antecessor, Lula, no empoderamento da América Latina e das relações entre Brasil, Japão e África na defesa do multilateralismo, mas também não rompeu com a linha economicista de FHC, que iniciou a legalização e o avanço das PPP.


Por isso, a preocupação não deve ser apenas com o PT, mas com a democracia, uma vez que relações desiguais de poder não mudaram fundamentalmente, apesar da retórica de parceria e de participação popular de todos os presidenciáveis, como vimos agora. Seus programas de governo aparentemente abertos e transparentes apenas contribuem para o enfraquecimento das formas de ação civil, das campanhas e das disputas necessárias à saúde das sociedades democráticas. A preocupação deve ser com a bateria elaborada e cada vez mais internacional de tecnologias sociais para a imposição e a legitimação de uma solução neoliberal de caráter fundamentalmente antidemocrático.


PERGUNTAS AOS ANTIPETISTAS