Educação, eleição e apagamentos históricos


Apagamento (assemblage, Sous Zerò)

Em um ótimo texto sobre democracia e memória para a editora Boitempo, o professor da UnB Luis Felipe Miguel diz: "Tal como o sono da razão, a amnésia também cria monstros." Aí está boa parte da explicação para a eleição da extrema direita ultraliberal que retomou o poder com o golpe de 2016 e se consagrou pelo voto em 2018. O professor fala em esquecimento voluntário. Eu falaria em esquecimento fabricado. Fabricado institucionalmente. Não temos apenas um jurista e magistrado equivalendo ditadura a movimento, mas casas do pensamento crítico agindo, secular e sistematicamente, para esse apagamento e a construção de novas narrativas à direita. As principais executoras dessa ideologia hegemônica são escolas e universidades. Não por outro motivo, os 20 anos de teto em educação e o retorno do ridículo escola sem partido à pauta na câmara dos deputados ontem. É preciso voltar com os cabrestos sobre elas.


Durante 4 anos, percorri parte da história do nascimento do ensino superior público para compreender seus impactos sobre a sociedade hoje. Logo percebi que universidades não nascem no vácuo, mas no jogo de tensões de desenvolvimento econômico, de ditaduras políticas, de influência estrangeira, de reformas orientadas para a eficiência e a produtividade. Tentei transcender o presente e acessar a História, porque poder e desigualdade percorreram longos caminhos para se tornarem o que são.


Duas conclusões: o embaçamento da história deste continente e a real identificação de parte da universidade com o academicismo, pretensamente desinteressado, neutro, como se isso fosse possível. Parecem desconsiderar que a produção do saber é e sempre foi uma prestação de serviços a alguém, e é para isso que nascem as universidades: para servir aos interesses das classes dominantes. Mas esse saber hegemônico está naturalizado. O resto é ideológico.


A torre de marfim, no próprio modo de existir, suprime as origens e os agentes da alegada "crise brasileira causada pelo PT", que é, de fato, mundial. O que há é um modo de operacionalização da ideologia pela exclusão, por supressão radical, do papel das autoridades públicas e dos agentes internacionais nos cortes na educação e na pesquisa. Transfere-se a culpa, então, para esse grande inimigo criado pelas forças hegemônicas: o pensamento progressista. E os eleitores zumbis embarcaram na história.


A questão que se põe é: que grau de apagamento histórico oficial ainda conseguiremos alcançar? Se "O homem que foi eleito no mês passado para ocupar a Presidência da República apresenta, como seu herói pessoal, o mais notório torturador de nossa história", atenção aos livros de História. Se a realidade brasileira é marcada pela colonização violenta e pelo capitalismo dependente, é preciso lembrar esse passado.


A educação necessária ao país para a superação de seus graves problemas deve levar a História a sério e mostrar que o que parece novo é resultado de processos antigos, e não acidentais; deve debater as contradições inerentes ao capitalismo naquilo em geram assimetria entre pessoas. No caso da UnB, ela mesma não pode esquecer seu criador. Recordar é preciso.

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