Dulcina, resistência e um cheiro forte de charuto


Sou cria de Dulcina, do Teatro Dulcina de Moraes. Meu primeiro tablado desde quando decidi ser atriz. Sou fruto de um dos palcos mais sagrados que existem em nossa cidade, não de formação, mas de prática vivida nas temporadas apresentadas desde 1995. Palco que é coração de Brasília. Conheço cada parte daquele lugar e algumas pessoas que passaram por ali – entidades e amigos da arte que, por amor ao teatro e à diva, também protagonizaram suas histórias no Dulcina.

O cheiro único, cheiro de coisa antiga, de coisa vivida, de esplendor e de decadência. Os camarins... como eu gostava de estar naquele subsolo! Viver aquele ambiente compondo minhas personagens. A cabine de som e de luz com suas gambiarras... antiga, para não dizer ultrapassada, mas que me ensinou a iluminar e dar o clima da cena. As coxias... histórias dos bastidores? Infinitas. Dariam um livro.

Com Dulcina, tenho duas histórias espiritualizadas. Uma se passou dentro da coxia. A outra, na cabine de luz, quando percebi sua presença etérea, à meia-luz, seguida de um cheiro forte de charuto. Nesses dois momentos, me conectei. Pedi licença e, com muito respeito, reverenciei Dulcina, por estar e por fazer parte dali. E assim faço sempre nesse teatro e em todos os palcos em que piso.

O Teatro Dulcina me acolheu, assim como acolheu democraticamente tantos outros artistas, outras tribos, outras gentes. No Setor de Diversões Sul, o Conic fervilha cultura e contracultura, sempre. Figuras anônimas, outras, nem tanto, transitam por lá, espaço tão vivo, tão colorido, tão diversificado. Hoje, encontra-se em estado de abandono, mas há muita gente criativa querendo reerguê-lo. Lá estreei um de meus grandes sonhos, o musical DESBUNDE, que reativou o teatro Dulcina com gente linda durante a temporada de dez dias! Foi em 2014.

Sou dessa geração que luta por Dulcina. Quero dar as mãos a todos aqueles que também lutam pelo espaço e almejam a sua revitalização. Queremos manter esse patrimônio, buscando mais oportunidade, mais segurança, mais inclusão e a arte como a grande personagem dessa história, ressignificando suas instalações. O movimento da arte em Dulcina resiste, persiste, implora que se mantenha, que se sustente. Que a gente se junte abraçando a causa Dulcina e o que ela representa.

São muitos atores e muito autores ocupando suas galerias, desejando preencher seus espaços e torná-los vivos e acessíveis a todos. Somos todos crias cúmplices de Dulcina. Precisamos rememorar o rito. Como disse Tullio Guimarães, ator, diretor e mestre de Artes Cênicas da Faculdade Dulcina de Moraes, “precisamos reforçar nossa crença na mais sagrada resistência”.

Dulcina é coração de Brasília! É igualdade! É de todos, para todos! É força!

Dulcina é divina! É diva!

Dulcina é arte! É cultura! É teatro! É música! É dança! É festa! É luta!

Dulcina e suas tribos! E seu público! E seus mestres!

Dulcina ocupação! Dulcina itinerante! Dulcina decadente! Dulcina sagrada! Dulcina profana!

Dulcina vive! Entretém! Pulsa!

Dulcina sobrevive! Nasce-morre-ressuscita! Resiste!

Dulcina, meu palco! Dulcina, minha escola! Dulcina, nosso patrimônio!

Dulcina Vive!

Viva Dulcina!


Juliana Drummond é formada em

Comunicação Social,

Atriz, Diretora e Coreógrafa.

#Teatro #Arte #Brasília

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