A Memória como Resistência: O Hisn de Paderne


Castelo Paderne
Castelo Paderne, arte digital. Sous Zéro, 2018

Meu irmão, a aurora vem

Feita de luz e esplendor

Ofertando assim à noite o véu.

Sorve já a matutina

Bebida que a alva traz

E, como se presa fosse,

Toma a alegria do dia

Pois da tarde nada sabes...

Meu irmão, toca a erguer!

Olha a festa da manhã

No jardim gelando o vinho.

Não durmas, é hora de levantar.

E, como se presa fosse,

Toma a alegria do dia

Já que sob o pó da terra

Longo te será o sono.

Abu Muhammad 'Abd al-Majid ibn 'Abd Allah ibn Abdun al-Yaburi

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Chego ao Castelo de Paderne. Suas grossas paredes de taipa militar, com matizes de ocre e amarelo ao sol da tarde de inverno, estão lá a lembrar de seu propósito defensivamente intimidador: resistiremos! Sim, houve luta – e não foram poucas – ao redor e dentro desse Hisn, desse pequeno castelo-povoado islâmico, que hoje, de acordo com a tradição, faz parte do campo dos castelos da bandeira portuguesa.


Toda ruína é um testemunho da melancolia própria da história humana. É inevitável a sensação de futilidade dos propósitos humanos que esses espaços antigos provocam. Castelos, sobremaneira. Sejam feitos de pedra ou de taipa militar, suas ruínas viram clichês de memórias de feitos heroicos, tambores retumbantes, pálios desfraldados, gritos e imprecações, tinir de espadas e todos os demais componentes associados aos cantares de gesta e banais películas “históricas” de Hollywood.


Porque a própria História é-nos dada como palimpsesto, camadas de escrituras historiográficas, cada época com a sua singular maneira de ver o mundo e tentar defini-lo com os instrumentos e mentalidades do momento. E, igualmente, para a afirmação de conceitos e preconceitos que referendem identidades de povos e nações. Mais do que a historiografia, a paisagem mesmo na qual se situa esse Hisn é um palimpsesto em si: a atual Paderne, Al-Bantar para os Almôadas, havia sido Paterna, em tempos romanos. E mais recuado no tempo, outros nomes, pelos celtas e pelos tartessos. Porque esse promontório rochoso é um lugar fortificado há milênios.


A chamada Reconquista Cristã da península ibérica é uma dessas ocasiões de escrever e reescrever a história: uma luta constante de séculos para retomar um terreno que era cristão e fora conspurcado pelos invasores muçulmanos, seguidores de uma falsa fé. Esse discurso foi formulado ad nauseam pelos cronistas do medievo tardio e do renascimento. Os cantares de gesta dos autores anônimos iniciaram o processo. El Cantar de Mio Cid é o exemplo mais evidente. Mais tarde, as crônicas reais dos feitos magnânimos de soberanos dos reinos peninsulares consolidam o discurso da guerra santa contra os inimigos da Cruz. Hoje, o discurso é outro, pois a época exige uma visão mais secular: a “Reconquista” é apenas mais um processo geopolítico de embate entre o mundo cristão e o mundo islâmico, uma luta de hegemonia territorial, social, econômica e social, como todas as lutas humanas, com componentes ideológicos fortes, de cariz religiosa.


Contudo, sabemos que a história peninsular é uma constante de invasões de povos distintos que no decorrer dos séculos foram se ajustando, se moldando, se misturando, se acomodando a cada leva mais forte de conquistadores: tartessos, celtas, cartagineses, romanos, vândalos, suevos, visigodos, árabes, berberes, todos lutaram, pacificaram, moldaram, consolidaram, resistiram, em momentos diferentes ou em mesmos momentos, no fluxo constante da história da Europa. O que são os portugueses e os espanhóis de hoje senão os retalhos de todos os povos anteriores no sangue de suas veias.


Essa busca por uma identidade sólida é inútil, em última análise. Extrair de um determinado momento histórico a justificativa para o presente é eliminar o próprio presente, sempre a construir. Não existe um estado-nação per si, inabalável, imutável, constante. O constructo da Espanha como unidade não existe sem as antigas espanhas cristãs: Astúrias, Leão, Castela, Navarra, Aragão e sem a Andaluzia islâmica. O mesmo vale para Portugal e a Galícia e o Al-Gharb. O atual fluxo de – ainda – incipientes movimentos separatistas em solo espanhol, o Catalão sendo o mais visível, talvez seja apenas mais um movimento do pendulo. Não é por acaso que na Catalunha busca-se no antigo reino de Aragão, ou mesmo no mais ainda remoto condado de Barcelona, como justificativa para uma (im)possível independência. Um ponto importante a considerar é que, em vários momentos, as alianças feitas davam-se também entre cristãos e muçulmanos, ao sabor de interesses momentâneos e imediatos. No século XI, por exemplo, régulos islâmicos de diversas taifas eram obrigados a pagar tributos aos reinos cristãos que os ameaçavam. O uso de tropas mercenárias cristãs e islâmicas em ambos os lados igualmente acontecia. A mélange era a regra, em vários aspectos: social, militar, cultural.


O sol ruma para cabo de São Vicente. Dou a volta no Castelo de Paderne. Vejo as aberturas nas muralhas pelas quais as águas dos dejetos escoavam há 850 anos, quando essa povoação fortificada servia de moradia para o comandante da guarnição – e da própria, além de agricultores, e que defendia essa região agrícola das incursões dos infiéis m